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A comprovação científica do efeito placebo.


Sempre ataquei os tratamentos médicos com substâncias inócuas, ou sem efeito racionalmente explicáveis, e não estou mudando minha opinião; porém, também sempre valorizei o vínculo médico paciente como um dos principais fatores garantidores de eficácia terapêutica. 

Uma publicação do Journal of Neuropsychiatry and Clinical Neurosciences no ano de 2013¹, fez-me ter uma visão um pouco mais abrangente.
A publicação trás um trabalho apontando a neurobiologia do placebo e de como as expectativas influenciam o desfecho do tratamento. Utilizando-se de imagens funcionais do cérebro (hemodinâmica e metabólica) e evidenciando alterações na atividade neural após administração de um medicamento inócuo a publicação demonstra que a fluoxetina e o placebo provocam incremento metabólico em semelhantes regiões cerebrais após 6 semanas de tratamento, sendo que fluoxetina apresentava o diferencial de estimular algumas poucas regiões a mais além das estimuladas pelo placebo.
Tradicionalmente os antidepressivos mais potentes produzem, em média, uma melhora dos sintomas depressivos de 60% a 70%, no prazo de um mês², enquanto a taxa de placebo é em torno de 30% em depressões graves. Nas depressões leves a taxa de resposta chega a estar bem próxima entre antidepressivos e placebo³.
Os principais mecanismos para uma resposta ao placebo são a expectativa do individuo de mudança dos sintomas e a aprendizagem condicionada de experiências anteriores. Assim, a resposta ao placebo é mais evidente quando o indivíduo acredita na garantia do profissional de que o tratamento terá um efeito benéfico substancial (expectativa positiva imediata) e também quanto teve uma experiência prévia na qual o tratamento resultou em efeito positivo (condicionamento).
Esses efeitos mesmo que limitados podem explicar completamente o tratamento fundamentados na memória da água defendidos por Homeopatas. É popular a forma como esses profissionais são destacadamente mais atenciosos em seus primeiros atendimentos, diferentemente dos médicos da prática alópatica, assim, geram expectativa de melhora muito maiores.
A conclusão mais útil acaba sendo que cabe a todo médico, de qualquer área, empenhar-se em gerar expectativas de melhoras aos seus pacientes, algo que sem dúvida, agora, conta com comprovação científica.


 1-.The Neurobiology of Placebo and Nocebo: How Expectations Influence Treatment Outcomes
Donald Eknoyan, Robin A. Hurley, and Katherine H. Taber
The Journal of Neuropsychiatry and Clinical Neurosciences 2013 25:4, vi-254 1

2. Katz MM, Koslow SH, Maas JW , Frazer A, Bowden CL, Casper R, et al. The timing, specificity and clinical prediction of tricyclic drug effects in depression. Psychol Med 1987; 17:297-309.

3. de Almeida Fleck, M. P., et al. "Diretrizes da Associação Médica Brasileira para o tratamento da depressão (versão integral)." Revista Brasileira de Psiquiatria 25.2 (2003): 114-122.

Comments

marcelo said…
Como dizia Dr. Carol: o importante é o vínculo!

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