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Matéria da Revista SAP HCTP Taubaté (transcrita)

Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico “Dr. Arnaldo Amado Ferreira” de Taubaté

Matéria da Revista SAP de 08/12/2013

Superação. Essa palavra define a realidade atual do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico “Dr. Arnaldo Amado Ferreira” de Taubaté. Superação de um pesadelo da época em existia uma ala destinada ao Regime Disciplinar Diferenciado e que gerava confusão sobre o tratamento destinado aos pacientes levados até a unidade. Graças às mudanças implantadas na estrutura da unidade e do esforço de toda a equipe, o HCTP de Taubaté atualmente oferece um tratamento humanizado e individualizado aos seus 256 pacientes (população em 11/09/2013), com acompanhamento multidisciplinar.
A unidade recebe pacientes que cometeram delitos por conta de transtornos de personalidade associados à psicose, neurose e/ou dependência química. “Embora o transtorno de personalidade não tenha cura, é possível tratar os sintomas mais graves, estabilizando o paciente e os traços antissociais que o levavam a cometer o delito”, explica o psiquiatra forense Leandro Camille Santos Gavinier. “Trabalhamos através da inserção em grupo, valorizando a construção pessoal dele aqui dentro, a conscientização do quanto ele trouxe prejuízo a sim próprio com o comportamento disfucional dele na rua”, salienta Gavinier.
Isso começa a partir de projetos simples, porém de grande efeito, como a comemoração individualizada do aniversário de cada paciente. “Tem uns que choram, porque nunca comemoraram o próprio aniversário durante a vida inteira, nem quanto eram crianças. Muitos cresceram na rua, abandonados.Passavam em frente de uma casa e viam a comemoração, o pessoal cantando parabéns era uma coisa distante, um sonho, aqui virou realidade”, explica Marcos Juliano Machado Ribas, diretor de segurança da unidade.
O diretor geral do HCTP- Taubaté, Adriano Cesar Maldonado, formado em psicologia, explica: “um aspecto que acontece na população carcerária e não é diferente da nossa população, no caso dos pacientes, é o resgate da auto estima. Existe já um pé conceito com relação a um indivíduo que cometeu um delito. Quando o individuo comete um delito e é um doente mental ele carrega muito mais estigma”
O resgate da auto estima passa também pelo cuidado com a estética. Através do “Projeto Sorriso” – criado paralelamente ao realizado em Franco da Rocha – o HCTP de Taubaté confecciona e conserta próteses dentárias para os pacientes. A dupla de cirurgiões dentistas Vanessa Villa Marinho e Adnei Borges de Campos cuida da manutenção bucal, consulta, tratamentos e procedimentos de urgência, além da confecção de próteses. “O objetivo é retomar a função da mastigação, claro, mas também a estética, explica Vanessa. Ela salienta que a maioria deles nunca teve acesso a um consultório, então eles saem do hospital mais reabilitados”. Atualmente 317 pacientes receberam próteses parciais ou totais desde o início do projeto e mais 40 devem finalizar o tratamento até o final do ano.

Superação das barreiras internas e externas
O processo de reabilitação em uma unidade que abriga dependentes químicos também envolve o combate ao vício. Além das consultas individuais com profissionais de saúde, os pacientes participam de grupos de apoio com psicólogos, onde debatem suas angústias e estratégias de resistência com os colegas internados. Há também os fornecimento de auxílio ao tratamento, seja através de adesivos de nicotina, seja pela medicação no combate da ansiedade.
L.F. faz parte do grupo específico de combate ao fumo. Ele usa de adesivos de nicotina, além de receber medicação, receitada pelo psiquiatra. No segundo dia de tratamento parou de fumar. “Eu já tinha parado com as drogas e queria me livrar de todo tipo de vício”, diz ele, contando que fumava dois maços de cigarro por dia. Sua força de vontade é motivo de orgulho para a família, que o visita regularmente. Atualmente, cerca de seis internos participam do grupo. Eles se reúnem nas oito semanas de duração do tratamento. O uso abusivo do álcool também trabalhado mediante um grupo terapêutico, realizado em parceria com grupo Alcoólicos Anônimos. Deste, participam cerca de 30 internos, divididos em turnos.
“A formação dos grupos terapêuticos depende do perfil dos presos naquele determinado período. Os três psicólogos da unidade atendem individualmente cada interno e estruturam os grupos de acordo com as necessidades específicas” conta a psicóloga Edilene Mory. Um exemplo é “Projeto Sessão de Cinema”, de livre participação, que se utiliza de obras audiovisuais para discutir temáticas trabalhadas pela equipe de psicologia.

Teatro como instrumento terapêutico
Mas não apenas as artes cinematográficas que tem destaque no cotidiano da unidade. Um grupo de teatro com os internos, realizado desde o ano passado, transformou-se numa ferramenta poderosa de reflexão. Dirigidos por Elcias Gonçalves de Souza, diretor do Núcleo de Segurança e Disciplina, os pacientes já interpretaram “O Filho Pródigo”, além da “Paixão de Cristo”, para apresentação durante a Páscoa. Agora eles ensaiam mais uma para o repertório “Teatro da Vida Real”. O nome já indica a fonte de inspiração: o relato de vida dos próprios internos.
Rodrigo, interno, fala das emoções dos pacientes ao verem suas vidas retratadas no palco: “A gente está vendo o passado, o que a gente cometeu. Fazendo a retrospectiva vemos o que pode melhorar, o que desnecessário”. Cristiano, outro ator-paciente, sintetiza assim a peça: “é uma forma educacional, até para a pessoa entender porque veio parar aqui”.



Embora tenha sido elaborado pelo diretor, o texto foi colaborativo e vai sendo reescrito de acordo com os ensaios. A atividade recebe o apoio da Pastoral Carcerária, que doa roupas e tecidos para elaboração dos figurinos. O restante do material é fruto do esforço dos funcionários e internos nas oficinas de artezanato da unidade. Cerca de 20 pacientes participam ativamente do grupo de teatro. Como atividade terapêutica, a ação é supervisionada pela equipe técnica do HCTP que assiste aos ensaios e debate com os internos. “Tudo isso é terapêutico. O trabalho em grupo, a construção em grupo, a arteterapia, o teatro que eles fazem, a simples visita do médico ao vê-los fazerem teatro. Eles se sentem valorizados” reforça Gavinier.

Superação de preconceitos
Ao chegar, como é de praxe com qualquer unidade da SAP, o paciente passa por entrevistas com psicólogos e assitentes sociais. No HCTP de Taubaté esse é o começo de um processo quase de detetive. Por conta da doença muitos pacientes perderam os vínculos há muitos anos com os parentes. Assistentes sociais E psicólogos juntam-se num trabalho minucioso buscando contato. “ O trabalho tem que ser feito bem em parceria mesmo. Não funciona o assistente social sozinho ou só psicólogo, pontua a assitente social, Carla Souza. “Primeiro buscamos com o interno, se ele sabe alguma informação da família. Caso não saiba, a gente busca contato com prefeituras, as vezes até postos de saúde, construindo alternativas até localizar” detalha Carla.
A psicóloga Morya enfatiza a importância do vinculo familiar especialmente para os pacientes sob medida de segurança. “Temos que verificar como essa família encara esse interno, se ela aceita, se ela não aceita. Dependendo da resposta da família a gente vai ter que construir estratégias. Porque se ele receber um laudo favorável e sair, quem vai ficar com ele?” questiona a profissional da unidade.
Antes de se pensar em saída da unidade, é necessário reabilitar o paciente, agregando ao tratamento, quando possível, ações de capacitação e profissionalização. Para isso, o HCTP de Taubaté tem quatro oficinas de trabalho, com 135 pacientes exercendo atividades laborterápicas de maneira remunerada. Os participantes entrevistados destacam a importância da atividade, tanto para “ocupar a cabeça” quanto na profissionalização para garantir a sobrevivência após a liberação da unidade. O diretor da unidade explica que cada paciente é encaminhado para as atividades laborais de acordo com o perfil. “O pessoal que é mais articulado nós direcionamos para alguns outros trabalhos que tem um processo mais elaborado, como o dos móveis artezanais”, distingue Adriano Cesar Maldonado. Ele ressalva porém que mesmo nas atividades mais repetitivas os pacientes têm destaque produzindo mais do que numa unidade prisional. “Por conta de muitas vezes eles virem de um contexto social onde não tiveram o mínimo, então quando algo lhes é apresentado, dão muito valor e acabam se sobressaindo”.
Na “Escola de Marcenaria” desenvolvida pela Fundação “Prof Dr. Manoel Pedro Pimentel (Funap), os internos aprendem a produzir peças de maneira semiartesanal, ou seja, utilizam maquinário industrial em algumas etapas de produção. A matéria prima é de pallets de madeira provenientes do Canadá, utilizados para proteger barcos trazidos daquele país.


Há monitores entre os pacientes que orientam os que estão sendo capacitados. Após passar pela Escola de Marcenaria, muitos deles são aproveitados numa outra oficina de produção de MDF decorativo. O dono da empresa que emprega a mão de obra dos pacientes é só elogios. Faz dois anos já de parceria. “Eu vejo que há uma progressão entres eles, depois de um tempo eles é que determinam o serviço. Tem gente que nunca entrou numa marcenaria na vida e hoje pensa em trabalhar para si próprio lá fora. A produtividade é boa mesmo com as limitações de horário que eles tem”, explica o proprietário.
A parte escolar não foi esquecida. Atualmente são cinco turmas. Duas pela manhã, da primeira à quinta série, focadas na alfabetização. Três à tarde: uma do sexto e sétimo anos, outra turma de oitavo e novo ano e a terceira uma turma focada no ensino médio, com 12 alunos. “ Muito dos internos tem o aproveitamento comprometido por conta da doença, mas há aqueles que são muito inteligentes, que aqui estão continuando os estudos” diz a diretora de educação, Andreia Aparecida Breve. Graças à parceria com a Secretaria de Educação 12 professores atendem os 41 alunos da unidade, provendo todas as disciplinas. Os alunos que estão concluindo o ensino médio recebem treinamento especial para o Enem. “Percebemos nas provas anteriores que muitos internos faziam o teste, mas quando chegava a hora da dissertação a grande maioria zerava, pois eles tinham muita dificuldade na leitura e interpretação de texto”, ressalta a diretora. “Agora, nós estamos trabalhando com os professores em sala de aula essas dificuldades, preparando-os para os exames e concursos lá fora” acrescenta.

A Funap continua sua parceria com a unidade, focando na profissionalização por intermédio do Programa de Educação para o Trabalho (Pet). Além disso, a fundação está em tratativas com Centro Paula Souza para oferecer cursos aos internos como já fez em 2012, quando uma turma for certificada em jardinagem. Além da sala de leitura da unidade, com um acervo de aproximadamente 4 mil exemplares, estão sendo construídos novos espaços para realização de atividades escolares, como pesquisas. “Não tem como trabalhar as coisas de forma separada. A pessoa vem para fazer um tratamento num hospital psiquiátrico e tudo é interligado: saúde, trabalho, educação”, ressalta a diretora de educação do HCTP- Taubaté, Andreia Breve.

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