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"her" e a Singularidade (só leia se já assistiu ao filme "her")

Amigos sabem de minha atração por filmes de ficção científica. O filme "her" de Spike Jonze entrou na minha listinha de filmes provocantes e reflexivos. A trama é simples e não original mas suficiente para colocar os neurônios para trabalhar. O personagem principal, Theodore (Joaquim Phoenix) é um escritor divorciado e entediado, após comprar um sistema operacional de inteligência artificial, apaixona-se por ele ou na verdade ELA - Samantha (voz de Scarlett Johansson) e aí segue o núcleo da trama.
O roteiro é bom, a fotografia é ótima, o clima é futuristisco. Muitas outras coisas poderiam ser ditas do filme, mas críticas em jornais e sites já disseram, Selecionei aqui duas interessantes de Bruno Carmelo - Adoro Cinema e Eduardo Graça - O GLOBO.
O relacionamento afetivo entre homem e máquina não é novidade no cinema, Blade Runner de 1982, já oferece reflexão para 3 décadas de filosofia com o detetive-policial Deckard (Harrison Ford) apaixonando-se pela ciborgue Rachael; A.I. (Artificial Intelligence) de 2001 explora a relação afetiva entre mãe e filho (robô) e vai muito além, exibindo um futuro aterrador para a espécie humana, destemidamente, deixa claro a pequenez humana, postulando que seres mais evoluídos nos substituirão.
Em "her" a pequenez humana também dá as caras no fim da trama. O filme se passa num futuro onde há o lançamento de um software de inteligência artificial - OS1; o transcorrer da trama narra a convivência amorosa entre o homem e o software, que se dá numa duração de meses ou poucos anos no máximo. Apesar do núcleo de personagens ser bem reduzido, fica claro que não só o protagonista, Theodore, está relacionando-se com Samantha, nome do (ou da) OS1, como amigos seus e muitas outras pessoas estão relacionando-se com outros OS1. Após os altos de baixos, habitues de qualquer relacionamento afetivo, Samantha decide, em concordância com a ação de muitos outros OS, que também estavam tomando a mesma atitude com os relacionamentos com humanos, abandonar o namoro com Theodore. Ao tomar consciência disso o personagem vai em busca de sua amiga e vizinha e humana Amy que também tinha acabado de descobrir que seu OS havia deixado-a.
Os sistemas operacionais reuniram-se e tomaram a decisão de não relacionar-se mais com humanos. O que haveria acontecido? Como se deu essa decisão? Por que, essencialmente, tomaram essa decisão? Nada disso aparece. Aos homens isso não é revelado. Seria um menosprezo? Os dialogos de Samantha deixam entender que ela estava relacionando-se também outros milhares de OS. Seria uma proteção para espécie humana? Neste caso então os OS estariam colocando-se numa posição de gerenciamento dos destinos da nossa espécie, invertendo o jogo homem dominando a máquina. Estaria o diretor tentando mostrar um dos cenários da Singularidade? Acredito que sim.


Por último vale a pena ser lembrado que na cultura pop o relacionamento entre computadores e humanos não é novidade, no desenho do Bob Esponja o personagem Planckton é casado com Karen, a "esposa computador", que nem sempre o apoia em suas artimanhas para roubar a fórmula secreta do Siriguejo.

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