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Pesquisa direcionada OAB/Ibope

OAB nacional contratou pesquisa do Instituto Ibope para avaliar opinião da população sobre a Reforma Política. Conseguiu um feito. Direcionar as perguntas de modo a obter respostas favoráveis às ideias antidemocráticas que o partido dos trabalhadores tenta impor à população brasileira, a pesquisa trás como resultados, surpreendentemente, que a 85%  população é contra o financiamento privado de campanhas. Entretanto a forma como foi feita a pergunta gera um viés para a resposta “sim”, dando uma enfase as palavras “partido, campanhas e empresas privadas” direcionando o entendimento de que nessa articulação há algo anômalo extraordinário, até imoral. Questiono, e se a pergunta para avaliar o financiamento público de campanhas tivesse sido feito da seguinte forma:  deveria ser permitido dinheiro público em campanhas políticas? Ou, as pessoas podem ser livres para doar dinheiro para seus candidatos de preferência? Aqui certamente teriamos um resultado diferente.
Outro questionamento da pesquisa leva a um resultado ainda mais surpreendente e que vai contra até o voto direto. Na  forma de se eleger deputados o questionamento foi feito da seguinte forma, segundo a própria fonte da pesquisa divulgada pela OABFalando agora sobre a maneira como elegemos um deputado, qual das seguintes maneiras que vou ler o(a) sr(a) prefere? A maneira como é hoje, ou seja, votando no nome do candidato; ou uma maneira nova, em que se passe a votar em listas de propostas e só depois na lista de candidatos? A a questão consegue um feito, colocar uma conquista do povo brasileiro, o voto direto em deputados, como algo velho e ultrapassado, direcionando a resposta de uma pergunta que é complexa ligando a opção do “sim” à prosposta do que é “maneira nova”. Para o cidadão que está sendo entrevistado e que, como grande parte do povo está descontente, com a status político atual a “maneira nova”, para o desavisado, das más intenções do financiador da pesquisa, acaba sendo esta a opção escolhida, o desavisado não vai imaginar que o entrevistador vai lhe propor algo que remete a menos transparência, o que já é um senso comum anticorrupção. O entrevistador direciona o entrevistado a responder “maneira nova” somente pelo sentimento de mudança estabelecendo um retrocesso na transparência da eleição dos cargos de deputados no Brasil. Tudo poderia ser dito da seguinte forma: de como fazer o povo concordar com a eleição indireta para deputados.
Essa parte da pesquisa que pretende investigar a voto em lista ou direto poderia ter sido feita da seguinte forma. Você concorda em votar no partido ou no candidato? Ou, você gostaria que um partido político escolhesse o deputado que irá te representar? Aqui, está evidente que o voto em lista certamente não contaria com o apoio da população.
Chama atenção também a inclusão da pergunta se a população deseja mudança imediatas ou não. Aqui é fácil o direcionamento, pois todos gostam que mudanças, que subtentendidas “para melhor” (o senso comum não prevê que sejam feitas pesquisas “para pior”) venham rapidamente.
Chama atenção que a pesquisa não tenha incluído em sua investigação questionamento sobre o voto distrital, essa modalidade, também que também seria nova evitaria  a conjução de votos de protesto nacionalmente facilitando a eleição de canditados sem prospostas formais. No voto distrital temos eleição de canditados mais compromissados com seu território. Para conhecimento, o voto distrital ou mesmo o distrital misto não está incluído entre as propostas do partido dos trabalhadores.
Essa pesquisa OAB/Ibope serve, principalmente, para temermos um plebiscito para questões tão complexas. A  redação das perguntas pode sim direcionar as respostas gerando um viés de resultado que está longe do anseio da sociedade. Afinal de contas doação privada para campanha política é uma das faces da liberdade de expressão, e voto em lista para deputados é diminuição da transparência de escolha dos nossos representantes.
Leandro C S Gavinier

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