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Qual a relação do uso de substâncias e seus impostos?

Originalmente postado no Portal Observador Político em 30/10/2011
O grande debate do uso de  substâncias psicoativas  acaba sempre sendo banalizado. No final das contas somos levados a ter que responder a questão se apoiamos a internação involuntária e compulsória ou se somos a favor da descriminalização do uso ou não. Não vou responder essas questões aqui, embora tenha uma opinião formada sobre tais assuntos.
Gostaria de nesse texto deixar claro o contexto geral que esse debate  deveria colocar-se: a relação do homem vivendo em sociedade controlada por um Estado. O uso de substâncias psicoativas, no geral, não é uma situação artficial e novidade dos dias atuais, o homem sempre experimentou substâncias da natureza, isso faz parte de nossa formação cultural.  Há um fator que provoca diferenças em relação ao passado: em geral consumia-se as substâncias in natura, sem manipulá-las, hodiernamente, o homem aprendeu a manipular as substancias, criando o crack, a cocaina e outras, cujo uso provoca grave dependência física. É evidente a desagregação, socio familiar provocadas por essas drogas.
A utilização de substâncias psicoativas em rituais religiosos como Ayahuasca e o  álcool em sua função de facilitadora da interação social; ambas aceitas pela lei e por parte da sociedade, nos coloca a questão da permissividade do quanto podemos aceitar que alguém altere sua função mental, entorpeça-se, com objetivo de entreter-se ou de potencializar sua reflexão religiosa. Em outras palavras, afirmo que o debate sobre drogas deve ser colocado primeiramente sobre a questão do ponto que permitimos que haja substâncias psicoativas aceitas e outras não aceitas pela sociedade, pois o álcool já carrega muitas das piores estatísticas que uma substância psicoativa pode carregar, desde a desagregação familiar, brigas, acidentes, doenças físicas e a morte, provocando gastos ao Estado.  Autorizar qualquer outra substância, além do álcool para uso social com a argumentação de entreter, potencializaria esses males que são desagregadores. Vale e pena? Não é o objetivo responder isso.
A discussão sobre a liberação uso de outras substâncias deve se dar sobre o quanto estamos dispostos a arcar com gastos (impostos) em saúde e assistência social para compensar os males que essas tais substâncias irão provocar, assim como o álcool  já provoca. Na hipótese da liberação do uso de substâncias o debatedor também terá de concordar que deveremos pagar mais impostos para custear as dificuldades que o governo terá de lidar para assegurar uma condição mínima de bem estar social, garantindo tratamentos e internação para os que precisarem.
Vejam que  coloquei a questão da descriminalização das drogas um pouco fora do foco de uma questão com viés moral da permissividade de aceitar que o outro possa estar entorpecido ou não. Acredito que se pudermos debater o quanto estamos dispostos a custear um estado cuidador para a permissividade maior ou menor do uso de substâncias psicoativas, muitas pessoas formarão a opinião sobre descriminalizar o uso de modo mais racional.

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