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O assassino da Noruega e o extremismo político.

Originalmente publicado no Portal Observador Poltíco em 19/04/2012

Saiu na Folha.com em (16/4/12):
“Atirador da Noruega se declara inocente em julgamento. Anders Behring Breivik, que admitiu ser o autor da matança de 77 pessoas em julho passado na Noruega, declarou-se penalmente inocente nesta segunda-feira, no início de seu julgamento em Oslo.”
Volto ao tema do extremismo das ideias, o desafio que o radicalismo político, religioso ou ambiental impõe a sociedade é debate que estamos muito longe de saber lidar. A sanha controladora da espécie humana só cresceu desde que passou a organizar-se em grupos e a constituir núcleos populacionais delegados de poder como tribos-estados ou cidades-estados. Mas é simples controlar pessoas? É simples controlar ideias? Apesar de todo movimento anti racismo, anti fascista, pró multiculturalista que os estados democráticos atuais promovem, ainda assim um fator desagregador parece ser intrinsecamente gerado dentro de cada geração. Com a oportunidade de agregação de grupos que a internet tem permitido com as redes sociais, tais ideias, ficam potencializadas.
Apesar do assassino da Noruega, defender o conservadorismo cultural, ultranacionalismo e o racismo, e ser uma aparente unanimidade do mal, ainda assim, ele é cultuado em algumas esferas. O Jornal alemão “Die Welt” denunciou que a grife de roupas Noruguesa Thor Steiner abriu uma loja na cidade de Chemnitz com o nome BREVIK entre duas bandeiras da Noruega, provocando reações no governo local e manifestações. A própria grife alega que já tinha tido uma loja com esse nome que havia sido fechada em 2008, entretanto essa explicação não convenceu. Uma afronta ao senso comum.
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Até onde deve ir a defesa pública de ideias extremas? Usar signos de uma ideologia que na verdade prega a prática de um crime dever ser proibido? Mesmo dentro do campo político esse debate não é equilibrado. Se a Suástica foi tão demonizada. Por que a Foice e o Martelo também não é? Stalin, Fidel, Mao Tse Tung, Che e outros, mataram em nome do Comunismo, e partidos brasileiros ainda usam o vermelho sob a foice o martelo como símbolo de busca de igualdade entre as pessoas. O que é mais nefasto? Matar por valorizar que uns são melhores que os outros ou matar porque todos devem ser iguais?
O debate de ideias precisa ser equilibrado e tolerante com as divergências. Extremistas sempre irão existir de ambos os lados e deverão ser tolhidos, se necessário, punidos; mas devemos nos manter serenos sabendo  a cada dia nascem novas pessoas, e com elas novas e divergentes ideias, responsáveis, isso sim, pela beleza de nossa espécie.
gavinier@gmail.com
Twitter: @leandrogavinier

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