Skip to main content

Mais Liberdades

Originalmente publicado em 01/09/2013 no portal Observador Político.
Sobre o programa “Mais Médicos” do governo federal, que também trouxe profissionais formados em medicina em outros países. Vislumbro excessiva ação do Estado na chancela do título de médicos somente para trabalhar nas unidades básicas e não em hospitais.
Se o governo deseja trazer médicos para o Brasil, ou os profissionais são médicos, ou não são. O que é inaceitável é que o governo se ache no poder de permitir que os profissionais somente poderão trabalhar na esfera pública impedindo-lhes de exercer sua profissão na esfera privada. A medicina é carreira comumente conhecida como composta por profissionais liberais. No fundo é uma questão de liberdades individuais.
Os Conselhos de Medicina podem até estar corretos ao desejar que os profissionais realizem uma avaliação especializada de conhecimentos com provas de proficiência em língua portuguesa e prova prática de matérias médicas, o tal exame chamado REVALIDA.
Entretanto como o governo tem atropelado essa exigência para, justamente pela existência dela, poder exigir que os médicos só trabalhem nos postos públicos de atendimento, os Conselhos deveriam buscar meios de habilitar esses profissionais que estão incluídos nesse programa para poderem atuar na esfera privada, garantindo-lhes o direito de trabalharem em hospitais ou de constituírem clínicas e consultórios privados, assegurando-lhes a liberdade que nossa constituição já nos garante. Vez ou outra os médicos do programa Mais Médicos podem ter que atender algum caso de urgência num pronto-socorro e isso lhes daria mais segurança profissional.
O grande ato de ousadia e arrogância do programa “Mais Médicos” é o de cercear a atuação do ofício profissional, emulando, numa esfera delimitada, o delírio totalitário de inibir a ação humana (profissional), permitindo-a somente dentro do âmbito estatal.
De maneira tradicional, faz-se distinção no Ocidente entre o Direito Privado e o Direito Público: o primeiro garante o estatuto dos particulares; o segundo preside à organização do Estado. Porém, relembrando a fala de Lenin em 1922 a construção do regime soviético, prevê: “não há mais Direito Privado, tudo se tornou Direito Público”. O homem não é mais livre para usar de seus direitos no seu próprio interesse; ele não se pode servir deles – e estes não lhe são concedidos – senão no interesse comum, definido pelo PARTIDO.

A máquina propagandística e a imprensa pouco intelectualizada chega aos estertores de exibir a restrição do direito de exercer uma profissão autonomamente como uma vantagem, realizando plenamente a inversão de valores gramsciniana e amaciando a população para o cerceamento da ação privada de outros ofícios num momento posterior.

Comments

Popular posts from this blog

Fim do ciclo de irracionalidade na política de saúde mental brasileira

Foi em 2003 que entrei em contato de verdade com a realidade da psiquiatria no Brasil, data que iniciei residência médica no Hospital Geral do Campo Limpo localizado nas bordas do violento Capão Redondo em São Paulo. Alguns dos meu professores da época mencionavam a Luta Antimanicomial e a necessidade de acabar com as internações psiquiátricas em manicômios. Reconheci a problemática que encerrava a lógica da assistência psiquiátrica centrada na internação e reconheço até hoje que o modelo de gestão de saúde mental centrado no hospital não é desejável para a sociedade. Porém a radicalização do discurso antimanicomial de alguns profissionais me incomodava, pois ali mesmo, em pouco tempo, deparei-me com uma contradição essencial: na ala psiquiátrica do pronto-socorro do hospital acumulavam-se pacientes em surto, casos gravíssimos, com demanda para internação imediata, e o número de leitos disponíveis na enfermaria psiquiátrica do próprio hospital era insuficiente, diariamente pacientes …

Livro de Pedagogia da Universidade Anhanguera prega doutrinação contra postura conservadora

Nos debates sobre doutrinação política nas escolas os professores e pedagogos em geral mostram-se especialmente escaldados. Frente à mínima menção de que o tema precisa ser discutido, passam a proferir acusações como "patrulha ideológica", "fim da liberdade de expressão", "discriminação". A reação exagerada de muitos profissionais da educação tem explicação. Grande parte da construção teórica pedagógica brasileira reveste-se uma intensão reformadora da sociedade. A concepção de que a pedagogia estaria empenhada em formar intelectuais transformadores seria um papel intrínseco da educação, muito além da transmissão de conhecimento. Algumas provas deste ponto de vista encontra-se num dos livros base do curso de Pedagogia utilizados pela Universidade Anhaguera. A autora, Maria Lucia de Arruda Aranha, famosa também por outros livros didáticos de filosofia para o nível secundário e universitário, sem meias palavras, no terceiro capítulo, escancara sua visão:
&q…

Burnout não é doença.

Segundo dados da previdência social, em 2013, foram concedidos 469 benefícios de auxílio doença e 29 benefícios de auxílio doença acidentário para portadores da condição codificada pelo CID-10 (Código Internacional de Doenças décima edição) como Z73.0 - "Sensação de estar acabado", "Esgotamento". No livro texto original do CID- 10 não há o termo "burnout". http://www.previdencia.gov.br/estatisticas/menu-de-apoio-estatisticas-seguranca-e-saude-ocupacional-tabelas/ A popularmente conhecida Síndrome de Burn Out, burnout, ou síndrome do esgotamento profissional, não é uma doença.

O conceito foi formulado pelo psicológo psicanalista Hebert J. Freudenberger em 1974 e apresentado ao mundo em seu livro  Burn Out: The High Cost of High Achievement. What it is and how to survive it. Numa tradução livre teríamos: Esgotamento: O alto custo dos grandes desafios. O que é e como sobreviver a ele. No livro publicado em 1980 o autor expõe a condição afirmando ter observad…