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Financiamento público de campanha: todo poder ao Rei

Originalmente publicado no Portal Observador Político em 11/11/2012.

A reforma política retorna ao debate e o financiamento das campanhas vem à reboque. Por muitos considerado uma das engrenagens que levaram ao mensalão, o financiamento privado de campanhas é expressão da liberdade do cidadão, que decidindo não participar da política diretamente,  investe num candidato que lhe agrada, que tem ideias semelhantes, que tem propostas interessantes.
Contra o argumento de que o financiamento privado exclusivo daria plenos poderes ao capital, ideia também temerária, já temos hoje o fundo partidário que alimenta os partidos com um piso financeiro garantindo a sobrevivência dos ideais organizados.
Entretanto os amantes do estado forte, inebriados pela popularidade de Lula-Dilma, agora querem acabar com o financiamento privado em campanhas políticas, uma suposta vacina contra a corrupção. Não é preciso ser astuto, qualquer ingênuo visualizaria que o jogo do poder não se atem ao dinheiro, mas ao poder em si. Sem falar que o dinheiro pode continuar a comprar apoio de modo não vinculado diretamente ao que vai aparecer na campanha. Fabiano Angélico, especialista em administração pública, abordou este tema, em texto publicado na Folha de São Paulo hoje, 11 de novembro de 2012, de modo interessante .
Essa aparente ação contra a corrupção na verdade esconde outro propósito: concentrar o poder. De que formas isso se daria? Primeiro: se há uma única fonte que libera o dinheiro para a campanha então é esta que deverá ser objeto de apoio, quer por interesse ideológico ou fisiológico, polarizando e desequilibrando a balança, esvaziando a força dos interesses opositores. Segundo: a restrição da capacidade de organização para pensar o poder público fora daquilo que o governo lhe destinou, exemplo: uma viagem de interesses partidários só do poderia ser feito com dinheiro do quinhão público, dificultando muito os partidos menores de oposição crescer no debate em nível nacional.
Na prática ocorrerá o estabelecimento de um teto ou limite máximo de capacidade de organização para debate do poder estatal; em termos mais explícitos: um sério atentado à liberdade do cidadão de pensar sua própria sociedade e Estado. A simples mudança para o financiamento público exclusivo de campanha coloca uma chancela virtual na liberdade do cidadão de organizar-se para questionar o establishment estatal: aquilo que não foi financiado por fundo público deixa de ser reconhecido como legítimo para questionar as ações governamentais e propor a troca de gestão estatal.
A restrição da capacidade de se permitir as vozes dissonantes de organizar-se, é o sonho totalitário daqueles que se acham detentores do conhecimento da redenção da espécie humana, tema vibrante nas hordas coletivistas onde, individualidade, é palavrório ofensivo.

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